quarta-feira, 24 de junho de 2009

O QUE PODE SER TEATRO

A palavra “teatro” é tão rica de significados diferentes – alguns se complementando, outros se contradizendo – que nunca sabemos ao certo sobre o que estamos falando quando falamos de teatro. De qual teatro estamos falando?

Antes de qualquer coisa, teatro é um lugar, um edifício, uma construção especialmente projetada para espetáculos, shows, representações teatrais. Nesse sentido, o termo “teatro” engloba toda a parafernália da produção teatral – cenografia, luz, figurinos, etc. – e todos os seus agentes – autores, atores, diretores e outros.

Teatro pode ser também o lugar onde se passam outros acontecimentos, cômicos ou trágicos, que somos obrigados a assistir de uma certa distância, como espectadores paralisados: o teatro do crime, o teatro da guerra, o teatro das paixões humanas.

Podemos chamar igualmente de teatro aos grandes acontecimentos sociais: a inauguração de um monumento, o batismo de um navio guerra, a sagração de um rei, uma parada militar, uma missa. Essas manifestações podem ser igualmente designadas pela palavra “rito”. Pode-se também dar o nome de “teatro” às ações repetitivas da vida cotidiana: nós encenamos a peça do café da manhã, a cena de ir ao trabalho, o ato de trabalhar, o epílogo do jantar, o almoço épico com toda a família no domingo, etc. Nestes casos procedemos como atores numa longa temporada de sucesso, que repetem sempre o mesmo texto, com os mesmos parceiros, executando os mesmos movimentos, na mesma hora por milhares de vezes. A existência humana pode ser uma sucessão de mecanizações tão rígida e desprovida de vida quanto os movimentos de uma máquina. Esse tipo de “teatro” incrustado em nossas vidas pode ser também chamado de “ritual profano”.

Frases como “fazer um drama”, “fazer uma cena” ou, em francês, “faire du théâtre” são usadas para descrever situações onde as pessoas manipulam, exageram ou distorcem a verdade. Neste sentido, teatro e mentira são sinônimos.

No sentido mais arcaico do termo, porém teatro é a capacidade dos seres humanos (ausente nos animais) de se observarem a si mesmos em ação. Os humanos são capazes de se ver no ato de ver, capaz de pensar suas emoções e de se emocionar com seus pensamentos. Podem se ver aqui e se imaginar a diante, podem se ver como são agora e se imaginar como serão amanhã.

É por isso que os seres humanos são capazes de identificar a eles mesmos e aos outros e não somente reconhecer. O gato reconheceu seu dono, que o alimenta e afaga, mas não pode identificá-lo como professor, médico, poeta, amante. Identificar é a capacidade de ver além daquilo que os olhos olham, de escutar além daquilo que ouvidos ouvem, de sentir além daquilo que toca a pele, e de pensar além do significado das palavras.

Augusto Boal


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